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Sombra

Edição 21 - Jan/Fev 2012

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Colunista - Manoel Beato


Confraria diVino

Nobres borbulhas


O champanhe nasceu no século 17, no período barroco. Uma criação original, embora provavelmente fruto do acaso


Por Manoel Beato

 

O champanhe nasceu no século 17, no período barroco. Uma criação original, embora provavelmente fruto do acaso. Nasceu, assim como o barroco, como uma novidade pouco palatável para os consumidores da época. Barroco e champanhe causaram estranheza: dois estilos provocantes que só foram aceitos em suas grandezas muito tempo depois de seu surgimento, com a assimilação do novo, coisa que frequentemente ocorre na sucessão dos estilos artísticos. Mera coincidência ou clara influência, o fato é que esse espumante da França setentrional, em vários sentidos, tem muito do estilo barroco: um certo desequilíbrio, ou um equilíbrio irrequieto, uma composição mais complexa que instiga, diferente do belo ideal renascentista. Virada a página da história, os confrades estão sentados à mesa da sala privativa do restaurante Fasano, o ano é 2011 e a grandeza e a nobreza do champanhe já são incontestáveis, sobretudo quando se prova o que se conhece como cuvée prestige, o principal rótulo de cada casa (maison) produtora. Quase todos o eram.

Todos atentos para a apreciação de nove champanhes, todos safrados, com exceção do Krug, casa de excelência, que participou com seu produto mais básico, mas que está à altura dos melhores dos demais produtores.

O Krug, sem safra, foi o primeiro a ser provado e era, certamente, bastante envelhecido na garrafa com sua cor dourado-alaranjada e seus aromas em evolução que lembram o Jerez, um aroma amendoado e ainda casca de laranja, animal, terroso e intensamente tostado. Na boca, o tempo diminuiu seu gás carbônico, suavizou-o. Um esplêndido champanhe envelhecido. O Cuvée des Enchanteleurs 1996, da Henriot, estava bem menos intenso que o Krug e apresentava aromas de confeitaria, baunilha, abacaxi e limão. Bem maduro, ainda jovem e com bela acidez, mas um pouco carente de perlage - as pérolas que são a alma de um espumante. O prestigiadíssimo Salon Blanc des Blancs 1997 esteve aquém do que costuma se apresentar, mas, ainda assim, com a dignidade de um grande. No nariz, apresentava-se ainda menos intenso que o Henriot, com muita mineralidade, remetendo a sal de frutas e a outras frutas sutis. Na boca, bela espuma, consistência, bebida bem seca.

O La Grande Dame 1998, da Veuve Clicquot, estava, como sempre, selvagem, com cheiro forte, tostado, de frutas cristalizadas e castanhas. Acidez e suavidade se fundiam numa composição bem afinada, com um delicioso desfecho.

O Perrier Jouët Fleur de Champagne 1999 me fez lembrar o estilo do Salon, porém com aromas mais herbáceos e com mais leveza que aquele. Na boca, apresentou sutil doçura e leve estrutura, ideal para entretenimento tanto de consumidores refinados como dos menos iniciados. O Dom Pérignon 2000 era o mais mineral do painel e, aromaticamente, lembrava alguns dos melhores brancos de Bourgogne, como os de Leroy e Coche Dury. Finíssimo, sério, seco. O Cuvée Cristal 2002 da Luis Roederer tinha toques de pimenta e também mineral, além de frescor de ervas, mas não tem apresentado - e tenho provado muitos exemplares dessa safra - a mesma riqueza aromática de outras edições. De todo modo, é um belo champanhe. A agradabilíssima surpresa ficou por conta do Louis XV de Venoge, que nunca havíamos provado. Aromas de húmus e de frutas extremamente maduras, acidez potente, volume harmonioso e pegada elegante que se soltava gradativamente e nos conquistava. A baixa foi o Cuvée William Deutz 1988: oxidado.

Assim foi a nossa festa, rica em borbulhas, proporcionadas por esse vinho tão dessemelhante, palavra essa que aprendi com as prazerosas leituras de nosso poeta Gregório de Matos.

 

Manoel Beato é sommelier há 25 anos, responsável pelos vinhos do Grupo Fasano e apresentador do programa Adega Musical da Rádio Eldorado FM

 

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