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Sombra

Edição 21 - Jan/Fev 2012

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Pelo Mundo


Falando de Vinho

Butique da Judeia


Em sua primeira visita ao Brasil, o produtor Ariel Ben Zaken, da consagrada vinícola israelense Domaine du Castel, fala com a diVino


Por Carlos Hakim e Marcel Miwa

Seus vinhos são kosher. Que diferença isso faz?
Ao contrário do que muitos dizem e pensam, a diferença de custo de produção de um vinho kosher para um não kosher não é grande. O que, de fato, aumenta ao fazer um vinho kosher são alguns insumos - uma rolha, por exemplo, chega a custar o triplo. Quanto ao consumo, apesar de indiferente para alguns, é imprescindível a outros que não o consumiriam caso não o fosse. Não há qualquer mudança de qualidade por ser kosher, eles são elaborados como qualquer vinho, seguindo apenas algumas regras não inerentes à bebida em si. Desde 2003, toda nossa produção é kosher e tem sido particularmente valorizada por isso nos mercados de exportação, onde atende à comunidade judaica.

Israel é um país que carece de chuva. Quanto isso influencia a produção?
Temos o privilégio de ter nosso país compreendido dentro de uma faixa ótima para produção vinícola. Outro privilégio é nosso país ser líder em tecnologia de irrigação, o que é imprescindível num país bastante desértico e com falta de água. Por termos um clima bem regular, as pessoas tendem a pensar que quase não há diferenças entre as safras, mas não é verdade. Isso é sentido nas parreiras, nas uvas e na produção ano a ano. Certamente nos ajuda o fato de não termos chuvas, fator que destrói safras em outros países.

fotos: José Henrique Vieira e Divulgação
Desde 2003, a produção do Domaine du Castel é kosher

Como está o desenvolvimento vinícola no país e como isso afeta vocês?
Havia um tempo em que eu conhecia todas as vinícolas do país. Nos últimos dez anos, surgiram mais de 150 novos produtores. Muitos migraram da produção de maçãs e laranjas para a produção de uva, em boa parte pelo fato de parreiras consumirem consideravelmente menos água, fora a possibilidade de venda e exportação com o crescimento do mercado enológico mundial. Os israelenses consomem vinhos de vários países, mas também consomem bastante o produto nacional, que, pela concorrência, vem melhorando e baixando de preço. Boa parte de nossa produção fica no mercado interno. Para nós, a livre concorrência é boa: mais e mais pessoas procuram por vinhos e, de uma forma ou de outra, acabam chegando no nosso produto e gostando dele.

Que peso tem o fator político de sua região no consumo de seus vinhos?
O povo judeu está espalhado pelo mundo e, como acontece em qualquer cultura, as pessoas acabam privilegiando produtos de sua própria gente. Isso nos ajuda bastante na venda, acredito que cerca de 65% de nossa produção seja consumida por judeus. Mas há também o outro lado. Muitos deixam de consumir o vinho israelense por não concordar com a situação política da região, por ser contra o Estado judeu ou até mesmo por discriminação. Felizmente, o lado "contra" não nos afeta. Fazemos um produto para o mundo, mas o consideramos parte de nossa cultura e esse tipo de vínculo não se perde.

Israel tem ou está buscando alguma identidade para seus vinhos?
Acredito que ainda estejamos na busca de uma identidade. Temos talvez duas castas autóctones, mas não são boas para vinhos. As uvas ditas francesas predominam no país e nosso vinho é mundano, como acontece com os de muitos outros países. Cabernet Sauvignon, Merlot, Malbec, Petit Verdot, Cabernet Franc e Syrah talvez sejam as principais tintas, enquanto Chardonnay e Sauvignon Blanc são as principais brancas. Mas temos nosso terroir e isso confere algumas características diferentes aos vinhos, com alguns toques mediterrâneos. Dificilmente os produtores de nosso país têm sobra de produção, e os vinhos estão cada vez melhores. Alguns têm apostado na Pinot Noir, tese com a qual não concordo; talvez por excesso de rigor e por ter acumulado experiência trabalhando na Borgonha, não vejo muito potencial para essa variedade em Israel no momento.

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