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Sombra

Edição 21 - Jan/Fev 2012

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Colunista - Marcel Miwa


Por Falar em Vinho

Opus Won!


por Marcel Miwa

Fotos: José Henrique Vieira e Marcel Miwa

Qual a fórmula para criar um vinho mítico? Existe uma máxima que os produtores tradicionais costumam repetir: produzir um grande vinho é relativamente fácil, a dificuldade está somente nos primeiros séculos de trabalho. Como, então, observar o caso de Opus One, cuja primeira safra foi obtida em 1979 e, nessa curta trajetória, se tornou uma das principais referências do vinho californiano? Para contar parte dessa história, o atual CEO de Opus One, David Pearson, esteve presente no Brasil a convite da importadora Casa do Porto e conduziu uma degustação vertical de Opus One.

Vale lembrar que, três anos antes da fundação do projeto do Barão Philippe Rothschild e Robert Mondavi, ocorreu o episódio que colocou o vinho californiano de forma definitiva no cenário mundial: o Julgamento de Paris. A assim apelidada degustação ocorrida em 1976 pôs frente a frente rótulos da França (Bordeaux e Borgonha) e dos Estados Unidos (Califórnia). O resultado das avaliações dos jurados, degustadores conhecidos e respeitados, majoritariamente franceses, mostrou que os vinhos americanos competiam dignamente com seus semelhantes franceses e, em alguns casos, inclusive, os superavam. Cerca de oito anos depois, chegavam ao mercado as duas primeiras safras de Opus One, a de 1979 e a de 1980, lançadas conjuntamente. Além do anúncio da primeira joint venture entre um château de Bordeaux e um produtor californiano, grande parte da repercussão se deu devido ao seu preço de lançamento – os US$ 50 pedidos na época criaram um novo nicho no mercado de vinhos norte-americanos, o dos superpremium.

Cronologicamente, David Pearson elencou alguns dos fatores mais relevantes na história de Opus One. O início do projeto foi marcado por algumas histórias pitorescas. Quando ainda discutiam o formato e o conceito que o novo projeto teria, Philippe Rothschild tinha o estranho costume de marcar as reuniões com Robert Mondavi em seu quarto, deitado em sua enorme cama. Dizia que 90% de seus negócios eram fechados daquela forma. Em um segundo momento, quando decidiam pelo nome da vinícola, Rothschild manifestou preferência por “Gemini”. Com algum constrangimento, Mondavi comentou que aquele era o nome de uma revista americana bastante popular na época, destinada ao público gay.

Enologicamente, no começo o Opus One não possuía adega, tampouco vinhedos próprios, embora os dois fizessem parte do planejamento estratégico do negócio e viessem a ser implementados quando possível. Nesse momento, os vinhedos de Robert Mondavi eram a principal fonte fornecedora, e, especialmente, as frutas do vinhedo To Kalon agradavam ao conselho enológico formado por Lucien Sionneau – diretor enológico do Château Mouton Rothschild – e Timothy Mondavi, filho de Robert Mondavi. Ambos deveriam entrar em acordo sobre como seria o vinho que traduziria a mescla dos estilos bordalês e californiano.

Continuamos então com a degustação, divididos em pares das décadas de 1980, 1990 e 2000. As primeiras amostras foram as de 1986 e 1988. De 1985 até 2000, o enólogo responsável pelo lado francês foi Patrick Léon (Château Mouton) – em sucessão a Sionneau – ao lado de Tim Mondavi. Curiosamente, 1988 foi o ano em que Philippe faleceu e sua filha, Philippine de Rothschild, assumiu o comando do lado francês. Na degustação, o caráter francês dos vinhos mostrou-se bastante evidente, com baixo teor alcoólico (cerca de 12,5%) e frescor privilegiado. A amostra de 1986 já apresentava taninos amaciados, notas de pimentão e sutil animal. A de 1988 mostrou-se mais jovem, com taninos aveludados e presentes, frutado negro limpo e notas de charcuterie, final longo com notas tostadas e de grafite.

No flight seguinte, estavam as amostras das safras de 1990 e 1991. E, na degustação, foi quando houve o maior salto no estilo dos vinhos. O de 1990 apresentou grande complexidade de notas frutadas, negras e vermelhas, taninos finos, textura bastante polida, tostado intenso e notas de charcuterie e pimentão, seguindo o estilo das amostras da década de 1980. O vinho de 1991 mostrou notas mais limpas e puras, com frutas vermelhas maduras, integradas a chá-preto e leve abaunilhado. Em boca, taninos mais intensos, ótima acidez e presença frutada até então inédita que perdurava até o fim de boca. Depois veio a explicação: 1991 foi a primeira safra produzida na vinícola própria, onde todos os equipamentos foram desenhados para produzir um grande vinho: mesa seletora dos frutos, processo gravitacional, tanques de vários formatos e capacidades, sala de barricas…A curiosidade foi a utilização de uma nova desengaçadeira, cuja regulagem ainda não havia sido perfeitamenete ajustada. Isso fez que muitos frutos passassem intactos pelo tanque de fermentação e esses grãos só foram rompidos quando foram extrair o vinho da prensa. O resultado foi uma segunda fermentação parcial nas barricas, que reforçou esse caráter frutado do vinho. Na sequência das amostras, foi o melhor até então. Em 1994 foi introduzido ao blend de Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc e Merlot outra casta bordalesa, a Malbec. E, em 1997, foi a vez de introduzir a Petit Verdot para formar o corte final com as cinco castas que compõem até hoje o Opus One. Na parte humana, em 2001, foi a vez de Michael Silacci assumir o departamento técnico. Egresso de Stag’s Leap, Silacci acumula formações nas universidades de Davis e Bordeaux, a combinação ideal para esse projeto. Como reconhecimento, recebeu o título de winemaker de Opus One, pois não se tratava mais de representar o lado americano e o francês, mas, sim, de representar a vinícola.

 

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