Todo produtor que se dedica ao complexo cultivo da uva se preocupa com o destino do resultado de seu árduo trabalho. Alguns não abrem mão de transformarem o fruto em bebida, enquanto outros cuidam do laboro na terra e entregam sua safra para que um grupo a transforme em um belo e vendável líquido. Esta última é a opção de 350 famílias, de 12 municípios da região do Vale dos Vinhedos, que compõem os associados da Cooperativa Garibaldi, uma das mais tradicionais do país.
A história da empresa, fundada na pequena cidade gaúcha que leva o nome do ícone italiano, Garibaldi, e que é hoje nacionalmente reconhecida como a terra do espumante brasileiro, começou em 1931 com 73 fundadores que apostaram no formato de cooperativa agrícola com o intuito de unir forças para ganharem em volume de vendas.
Em apenas cinco anos produzindo espumantes, a Cooperativa Vinícola Garibaldi tornou-se a quarta maior do País neste segmento.
Durante as primeiras três décadas, a marca vivia uma incrível expansão. Em 1957, a bonança das produtoras da região era tanta que a Garibaldi, a Aurora, a Forqueta e a Vinícola Rio-Grandense se uniram para comprar um navio capaz de escoar toda a produção de uvas, vinhos e sucos para os portos de Santos e do Rio de Janeiro, em busca de melhorar a competitividade. Na década de 1960, a Garibaldi atingia seu auge, com a marca histórica de 1600 associados que produziam 30 milhões de quilos de uva.
Com o período da ditadura militar, diversos entraves políticos, aliados à má gestão da direção da cooperativa e ao endividamento muito alto, trouxeram à tona a maior crise da história da Garibaldi. Em 1973, ela já havia reduzido seu quadro para 800 associados e financeiramente vivia uma situação muito delicada, chegando perto da falência. Mudou-se então a direção da empresa, as cooperativas da época conseguiram maior apoio do ex-presidente Figueiredo e o tufão foi superado, deixando marcas e muitas lições.
Desde então, a empresa começou a investir em gestão e a se reestruturar para voltar a competir com força em um mercado onde entravam gigantes multinacionais como a Moët & Chandon e a Martini & Rossi, que viam na região um belo terroir para a elaboração de espumantes. Na década de 1990, o enoturismo surgiu como um importante meio de fomentar a visibilidade e a geração de recursos para as vinícolas da serra gaúcha, e a Garibaldi também passou a investir nesse segmento. Atualmente, a vinícola recebe cerca de 60 mil visitantes por ano.
Milênio otimista
Em 2004, já na gestão do atual presidente Oscar Ló, a empresa começa a mudar um pouco o foco de sua imagem no mercado - antes vista apenas como produtora de vinhos de mesa, com rótulos simples como o Bartolo e o Precioso, passa a investir em alguns bons finos, como o premiado espumante Garibaldi Moscatel, e na marca de tranquilos Chalet. Outra aposta acertada da direção foi a de incentivar os associados a plantar uvas para sucos integrais e orgânicos.
Esse reposicionamento, aliado a diversos investimentos em estrutura e tecnologia na ordem de R$ 12,5 milhões nos últimos quatro anos, permitiu que a Garibaldi entrasse em uma onda de crescimento constante. Tanto que a expectativa é fechar 2011 com um faturamento de mais de R$ 52 milhões, 17% superior ao de 2010. "Passamos a trabalhar com duas filosofias importantes: a da sustentabilidade e a de remunerar os produtores com valores acima da tabela-referência do quilo de uva indicada pelo governo. Esses dois pilares estão trazendo resultados fantásticos para os cooperados e para os negócios da empresa", conta Oscar Ló.
Em apenas cinco anos produzindo espumantes, a Garibaldi já se tornou a quarta maior do país nesse nicho de mercado e é também a sétima no ranking de elaboração de vinhos, entre finos e de mesa. A safra deste ano é recorde: são 16 milhões de quilos de uvas provenientes de 800 hectares, um volume 30% maior que o de 2010 e bem acima da expectativa da vinícola.
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Aposta sem álcool
Embora a Garibaldi deva trabalhar fortemente na qualidade de seus espumantes e no mercado de vinhos finos, com ações como a recente compra da antiga marca concorrente, Granja União, a empresa também quer intensificar sua participação no mercado de suco de uva integral e no projeto de orgânicos. As primeiras experiências da cooperativa começaram em 2001 com a aposta de três produtores que decidiram transformar parte de seus vinhedos em áreas de produção orgânica. Hoje já são 48 associados certificados que forneceram, neste ano, 550 mil quilos de uvas, bem mais que os 228 mil quilos fornecidos em 2010. "Os viticultores estão animados por se enquadrarem na filosofia de um cultivo natural e pelos ganhos, que representam 50% em comparação com o proveniente do plantio que utiliza defensivos agrícolas", explica Oscar Ló, que prevê alcançar em 2012 cerca de 900 mil quilos de variedades orgânicas como Isabel e Bordô. Rafael Tomasi, um dos primeiros associados que apostaram no cultivo orgânico conta que seu pai, também viticultor, relutou muito tempo em adotar essa filosofia, mas ao ver os resultados nos vinhedos do filho, decidiu, enfim, converter parte de sua produção também para esse nicho. "É um desafio enorme, mas o retorno é excepcional. Trabalhamos com variedades americanas, mas, ao contrário do que muitos dizem, no Vale dos Vinhedos também é possível plantar vitiviníferas orgânicas com sucesso, basta escolher bem o local", revela o produtor.