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Sombra

Edição 21 - Jan/Fev 2012

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Colunista - Manoel Beato


Confraria diVino


A impressão Mouton



Manoel Beato é sommelier há 26 anos, responsável pelos vinhos do Grupo Fasano e apresentador do programa Adega Musical da Rádio Eldorado FM

Curiosamente, o nome Mouton nada tem a ver com carneiro, que é a tradução literal para a palavra mouton. O nome foi extraído da palavra "mothon", do francês arcaico, e quer dizer: uma elevaçao de terra, um pequeno monte, e não o papai do cordeiro cuja esposa conhecemos como ovelha.

Da etimologia para a enologia, um dos ícones dos vinhos de Bordeaux, o Mouton, merecidamente, em 1973, pulou de segundo, onde se encontrava desde 1855, quando houve a primeira classificação, para primeiro, "premier cru classé". Sendo ícone, é único, com um estilo que o diferencia dos outros tintos sagrados da região, tais como Latour, Lafite e Margaux. Desse quarteto sublime, o Mouton é o mais afável - ainda que o Margaux seja o mais delicado, sutil e floral - mesmo que se leve em conta o encanto de Lafite e Latour, repletos de fineza e complexidade. Mouton traz sempre maciez e aromas tostados e caramelizados. É um vinho envolvente.

O Château atravessou o último século com identidade peculiar e a grandeza própria dos vinhos de alta vinicultura, comprovada pela longevidade e pelo primor de cada uma de suas safras, afora poucas pedras no caminho, que, afinal, cortaram o caminho de todos - e, se assim não fosse, não seria essa surpreendente e sutil bebida.

Pude confirmar sua longevidade nos vinhos ainda vivos das safras de 1924 (com frutado exuberante, húmus e frescor), de 1925 (já com relativo aroma de ácido acético, mas ainda bom), de 1926 (gordo, porém fresco) e da excepcional safra de1929 (este bem mais exuberante e jovem que o de 1924).

O ano de 1945 é o da vitória: dos aliados da Segunda Guerra contra o nazi-fascismo e da perseverança pela continuidade da produção dos grandes vinhos. Dois fatos marcam o ano de celebração: um, mais providencial, foi o rótulo do Mouton ter sido especialmente alterado, ganhando inscrição e desenho que homenageiam o "année de la victoire". O outro, coincidência para um momento histórico de celebração, provavelmente um presente de Baco: o clima do ano faz desse um dos vinhos mais míticos e imorredouros. Para alguns, simplesmente o melhor vinho de todos os tempos. Também privilegiado pelos presentes de Baco tive algumas possibilidades de prová-lo, inclusive uma no formato "magnum", ideal para vinhos bem velhos. A safra de 1945 trouxe um vinho polpudo concentrado, sedoso e magnificamente complexo, com inimagináveis sabores e todos os perfumes, vegetais, animais, frutados, florais, balsâmicos e outros mais.

Inaugura-se em 1945 um novo conceito em relação aos rótulos: todos os anos até os atuais terão rótulos diferentes, cada um pintado por um importante artista, como Chagal, Miró, Dalí e Francis Bacon, entre outros.

Os anos que se seguiram até o final da década foram igualmente generosos, com destaque para o de 1947. Nos anos 50, de 1951 a 1954, boas surpresas, além do 1958 e do sempre jovem 1959.

A década de 60 não foi tão lisonjeira assim, apesar de alguns anos terem me oferecido vinhos ainda saborosos - entre eles o 1966 e, é claro, a exceção da safra, o monumental "meia um": intenso e estruturado.

Na década seguinte, safras pouco generosas, diluídas, alguns bons vinhos e apenas um ótimo: o de 1976. De agora em diante, não passarei por todas as safras, para me ater aos vinhos da grande prova da Confraria diVino.

 

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