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Degustador da diVino, Marcel Miwa é especialista em gestão do serviço de vinhos pelo SENAC -SP . |
O mundo do vinho, por vezes, pode ser cruel. Um produto que necessita de tantos anos - às vezes, séculos, como os clássicos châteaux ou domaines franceses - para construir sua qualidade e reputação sofre uma pressão cada vez maior por novidades. A cada ano, existe o compromisso de apresentar algo novo ao mercado, um novo vinho, uma nova pontuação, um novo projeto.No Velho Mundo, as expectativas ficam por conta das condições de safra da cada novo ano. A tradição e as leis de Denominação de Origem restringem, com certa razão, a liberdade de atuação dos produtores. A história já realizou uma seleção natural das variedades e locais com maior potencial. Já no Novo Mundo, onde a cultura de produção e consumo de vinhos é mais recente, a fase ainda é de experimentos, seja de castas, seja de locais, seja de formas de viticultura e de vinificação. Essa falta de amarras cria um ambiente propício à criação e ao dinamismo. Há liberdade para experimentação. Nesse cenário, o Chile vem-se mostrando um dos líderes na disputa pela atenção dos consumidores e especialistas, tão ávidos por (boas) novidades.
É certo que as condições naturais chilenas permitem a identificação de grande diversidade de terroirs e, por consequência, a adaptação de várias castas. Se o país era conhecido como país da Carmenère e da Cabernet Sauvignon, hoje já existe a Sauvignon Blanc em suas diversas expressões: de Limarí (no norte), de Casablanca, de San Antonio e de Leyda (no centro) ou da região costeira de Colchágua, pouco mais ao sul. A Chardonnay também possui várias expressões, desde o extremo norte de Elqui e Limarí até o sul, na fria e úmida Malleco. A Pinot Noir encontra melhores condições na região costeira, sob maior influência das correntes frias do Pacífico. No entanto as estrelas da vez são as castas do Rhône, onde brilha a Syrah, com seus satélites Grenache, Carignan, Mourvèdre, Cinsault e Viognier.
E é pacífica a concordância dos produtores quanto à nova lei de Denominação de Origem no Chile. Em muitos casos, a combinação de solo com clima é muito mais diversa na orientação leste-oeste do que na norte-sul. Com isso, além da já conhecida classificação de regiões de norte a sul, a nova DO contempla sub-regiões de leste a oeste: Cordilheira, Entrecordilheiras e Costa. Depois dos sucessos norte-americano (com os Rhône Rangers) e australi no (com a Shiraz e os cortes GSM - Grenache-Syrah-Mourvèdre), o Chile c meça a reinvidicar seu espaço com as castas do Rhône. Em recente visita ao Chile, pude conferir de perto alguns dos bons trabalhos com foco nesse estilo de vinho. No extremo norte do Chile, está a Viña Falernia, precussora na produção de vinhos finos numa região tradicionalmente conhecida pela produção de Pisco. A vinícola está localizada em Vicuna, com vinhedos no entorno em altitude de 600 metros. O enólogo italiano Giorgio Flessati comenta que, hoje, Falernia possui vinhedos que chegam a 2.100 metros de altitude, os mais altos no Chile. Seu Syrah Reserva é um ótimo destaque, com preço bastante convidativo (em torno de R$ 69) considerando-se a qualidade apresentada.
A cerca de 150 km ao sul de Falernia e já no vale do Limarí, está a Tabalí. As características naturais, como clima fresco e seco e solo calcário, nas mãos de profissionais de primeira linha - como o viticultor Hector Rojas e o enólogo Felipe Muller - dão origem a alguns do vinhos que se tornaram sinônimo da tipicidade da região. O recente lançamento do ícone Payen, com 100% Syrah, mostra que a vocação da região vai além da Sauvignon Blanc e da Pinot Noir. Em seguida, provamos toda a linha de um dos projetos mais interessantes do Chile hoje: T.H. (Terroir Hunter), da vinícola Undurraga. Aos cuidados do jovem enólogo Rafael Urrejola, que conta com consultoria de Pedro Parra, a linha T.H. tem por filosofia procurar pequenas parcelas de vinhedos por todo o Chile, onde a expressão do terroir consiga expressar-se de forma pura. Com isso, a Syrah aparece em três versões: Syrah do Maipo 2009 (solo aluvial), Syrah de Limarí 2009 (solo aluvial e calcário) e Syrah de Leyda 2009 (solo granítico). A primeira, com frutado mais maduro e taninos volumosos e polidos, tem estrutura compacta. A versão de Limarí tem frutas mais frescas, nota de pimenta negra, grafite e taninos mais austeros. E em Leyda, a Syrah apresenta a mesma fruta negra de Limarí com notas de charcuterie e violeta.
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