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Descendente de portugueses da época colonial, Benedito de Góes trabalhava como tropeiro - levava produtos em mulas para serem comercializados no Mercado Municipal. O trajeto era longo, especialmente para os padrões do início do século XX. Quase 60 km separavam a capital paulista da pequena cidade de São Roque. Entre uma viagem e outra, seu Benedito arriscava-se a elaborar vinhos artesanais para consumo próprio. Mal sabia ele que, um dia, sua região se transformaria no principal polo produtor de uvas de mesa do Estado.
Seu filho, Gumercindo, cresceu admirando a paixão do pai pela bebida. Era a inspiração de que precisava para que fundasse, em 1946, a vinícola Palmares, que, anos mais tarde, se transformaria na reconhecida vinícola Góes. Vieram as décadas de 1950 e 1960 e, com elas, o auge da produção de uvas popularmente chamadas de americanas, como Isabel e Bordô, usadas para fazer vinhos de mesa. A região encontrava então a sua vocação: eram cerca de 150 bodegas que elaboravam uma bebida simples, do dia-a-dia, e que popularizaria os famosos vinhos de garrafão.
Nas décadas seguintes, a expansão começaria a recuar. Enquanto a vitivinicultura crescia no sul do país, os vinhateiros de São Roque, do chamado Vale das Adegas, perdiam forças e, afetados pelo êxodo rural e pela especulação imobiliária impulsionada pela construção de condomínios na região, reduziam as áreas de plantio de uvas. Dezenas de vinícolas fecharam suas portas. Restaram apenas 15, e grande parte da produção local de vinhos tornou-se dependente das frutas vindas do sul do Brasil.
Durante seus 62 anos de história, a Vinícola Góes atravessou todas essas fases, sempre buscando alternativas para diversificar seu portfólio e renovar sua imagem. Em 1986, adquiriu a concorrente Quinta do Jubair, levando a marca de São Roque para a região de Flores da Cunha, no Rio Grande do Sul, onde seriam engarrafados em grande escala os primeiros vinhos finos da empresa. Três anos depois, voltou a investir no Sul e firmou uma sociedade com a família Venturini, criando a empresa Góes & Venturini, que passaria a ser responsável por toda a produção de varietais do grupo, assim como a linha de espumantes Vívere. A estratégia era unir a excelência das uvas gaúchas ao know-how comercial dos paulistas.