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Hei! Mas espere aí! Que raios o Amarone tem a ver com o assunto anunciado no título desse texto? Explico: até há pouco mais de duas décadas, era praticamente exclusividade da denominação de origem Amarone della Valpolicella produzir vinhos com um volume alcoólico superior a 15%, obesos, com uma consistência que, de tão concentrada, nos dá a impressão de que é possível cortá-los com faca ou foice e de que são feitos não para beber, mas para mastigar - "vin de mâcher" é a expressão francesa para esse tipo de vinho.
Pois assim são, de algumas décadas para cá, quase todos os melhores vinhos australianos, seguindo um estilo, próximo em peso, da maior parte dos grandes californianos e argentinos, entre tantos outros modernos. O leitor-degustador já deve ter percebido que estão "amaronizando" muitos dos vinhos do mundo. E a Austrália é o maior exemplo disso.
Então estávamos, mais uma vez reunidos, copo na mão e muita atenção para mais uma diVina degustação. Provamos oito dos melhores vinhos australianos, da uva Shiraz, ou Syrah, e todos, como já havia anunciado, eram literalmente calorosos.
O 2002 Marquis Philips - Shiraz Integrity era imensamente frutado, mas trazia azeitonas, ponta de lápis de cor, vegetal, canela, gengibre e álcool e, no nariz, até lembrava quentão. Na boca, era quente, cheio de especiarias, mastigável, espesso, poderoso.
O 2005 Colonial Estate - Exile, olfativamente alcoólico, remetia ao alcaçuz da balinha gintan. Estrutura nervosa em que a acidez parecia se soltar ainda mais depois de um tempo no copo.
O 2006 Two Hands - Shiraz, herbáceo e bastante resino, também lembrava ponta de lápis. Na boca, sentia-se gengibre, muita fruta vermelha e/ou preta e sensação de ser, a um só tempo, ácido e salgado.
O 2000 Elderton Command Vineyard era um Syrah bem típico, frutado, com couro, pimenta- preta e terra; na boca, bastante salino, com nuances de iodo, canela e uma pitada metálica que lembrava sangue. A sensação final se perdia um pouco: arrefecia-se.