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Sombra

Edição 21 - Jan/Fev 2012

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Aromas & Sabores


Confraria diVino

Os mais envolventes e eloquentes Syrah


Nossos confrades e especialistas degustam e opinam sobre a hegemonia dos grandes tintos do mundo.


por Manoel Beato

No último ano, passei duas vezes pela região do Rhône, que se estende de Avignon a Lyon, ligando as regiões vinícolas da Bourgogne, ao norte, e da Provence, ao sul.

A mais recente, com amigos de vinho e vida numa delirante viagem gastronômica, foi para jantar no charmoso restaurante de Anne Sophie Pic, única senhora presente no Panteão dos consagrados chefs três estrelas do guia Michelin na França.

E a primeira, para conhecer a produção do mais renomado chocolate francês: o Valhona, cuja elaboração é feita na pitoresca cidadezinha de Tain Hermitage, cortada pelo longo rio Rhône. Com suas encantadoras pontes, situa-se no coração da denominação Hermitage, de onde se avistam, olhando em direção ao alto das montanhas que a cercam, importantes vinhedos, como o de La Chapelle, para o qual todos os amantes de vinhos que passam por lá apontam o dedo, cheios de comoção - plenamente justificada, já que é ali que nascem alguns dos mais soberbos tintos do planeta.

A região Côtes du Rhône é dividida bem definidamente em Rhône Sul, onde os tintos são, em geral, elaborados com várias uvas, e Rhône Norte, que tem a Syrah como sua única casta tinta. É no norte que, além de cozinha três estrelas e chocolate de primeira, se encontram duas denominações vinícolas - Hermitage e Côte Rôtie - que produzem vinhos de grandeza comparável com a dos melhores das denominações de Bordeaux e da Bourgogne, regiões essas que, até os anos 80, tinham a hegemonia sobre os grandes tintos do mundo.

Ainda não passei por lá neste ano, mas foi como se tivesse ido, quando a confraria diVino se reuniu para analisar e saborear vinhos divinos, na sala privativa do restaurante Fasano. Eram Hermitage e Côte Rôtie de produtores diversos. Importante ressaltar que havia vinhos de safras distintas e distantes, o que acabou por dificultar as comparações. Além das diferenças entre a plenitude de uns e a puberdade de alguns, havia o fato de os mais jovens se transformarem sobremaneira a cada pequeno espaço de tempo, depois de servidos nos copos. Aqueles que tiveram paciência para aguardar por uns dez, 20 ou 30 minutos desfrutaram ainda mais os olores e sabores que se abriam como uma cauda de pavão.

Mas vamos ao bem-bom, que é a degustação e, antes que haja protestos por parte de leitores que se recusam a avaliar os vinhos conferindo-lhes notas, gostaria de salientar a importância de julgar vinhos de maneira objetiva, provando às cegas, como fizemos. Isso não significa que haja unanimidade entre os degustadores nem que devamos preferir os mais pontuados.

Com 17/20, dois vinhos: o Hermitage Le Méal 96, da Maison Chapoutier, com certo tostado, frutas secas e vegetal, que mostram a juventude do vinho, mas com uma pitada de azeitona, sinal de envelhecimento precoce e desequilíbrio na boca, ilustrado pela acidez destoante e pela textura rugosa; e o Côte Rôtie La Mouline Guigal 86, que não deve ter sido bem armazenado e se mostrou um pouco oxidado, porém, valente e potente como é, tinha sabores intensos de frutas secas, azeitona, massa de tomate e humos, além de uma bela persistência.

Com 18/20, o Hermitage Le Gréal 98 Sorrel. Jovem, com um leve iodo, frutas maduras e folhas verdes esmagadas. Um vinho que busca as profundezas da terra trazendo agradáveis herbáceo e mineral.


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