Conheci Saul Galvão há alguns anos, em uma viagem enogastronômica pela Espanha, com outros jornalistas brasileiros. Já havia visto aquela figura única, que desfilava olhares pícaros e bigodes vastos pelos corredores do Grupo Estado, quando eu era repórter do "Jornal da Tarde" e ele, na redação desde 1965, um dos críticos de gastronomia e enologia mais respeitados do país. Ao saber de sua morte, no início de setembro, ocasionada por complicações decorrentes de um câncer, eu me lembrei dos dias de convivência em terras espanholas.
Foi curioso me dar conta de que a descrição feita por colegas de Saul nas diversas reportagens publicadas sobre ele coincidia exatamente com a imagem que eu tinha construído durante aqueles poucos dias de tour: um homem de personalidade expansiva (às vezes, difícil), sempre pronto a dizer frases espirituosas, de muito conhecimento e de grande generosidade.
Em uma semana, visitamos produtores de vinhos, queijos, jamón, azeite e outras delícias do norte da Espanha. Saul, o mais experiente do grupo, provava e se interessava por tudo como se fosse a primeira vez que estivesse vivendo aquela experiência. Mas não se deixava impressionar facilmente e também fazia questão de mostrar quando algo não era de seu agrado. Às vezes, ficava calado ("Se não tenho nada de bom a dizer, prefiro simplesmente não dizer nada"). Em outras ocasiões, porém, quando o vinho não encantava e já havia muito álcool correndo pelo sangue, Saul fazia cara feia e, de volta ao hotel, deixava claro o seu veredicto. "Te gusta el vino?" E ali, na entrada mesmo, deixava a garrafa que havia recebido dos produtores como gorjeta para o recepcionista. As botellas que haviam passado pela prova do seu afiado paladar atravessavam a porta e iam direto para sua mala.
Não era arrogância, era conhecimento. Conhecimento que Saul não se importava em dividir. Ao contrário, ele gostava de descomplicar as coisas. Sabendo que eu tinha pouco tempo neste mundinho, fazia questão de me explicar tudo, mostrar, ensinar - como se estivesse conversando com um amigo, de igual para igual.
Acredito que, em parte, essa facilidade para falar com entusiasmo com qualquer pessoa sobre um universo muitas vezes intimidante e esnobe como pode ser o da gastronomia e do vinho tenha sido uma das razões de ter angariado tantos seguidores. Além de sua experiência, é claro.
Referência nacional
Saul Galvão de França Júnior nasceu em Jaú ("modéstia à parte", costumava emendar), em 3 de abril de 1942. Em 1960, mudou-se para São Paulo para estudar direito no largo São Francisco, mas não concluiu o curso. Começou a trabalhar como jornalista de política no Grupo Estado em 1965 e nunca mais pensou em ter outra profissão. Em 1978, começou sua trajetória de crítico de restaurantes no "Jornal da Tarde". Nos anos 80, aproveitando as viagens frequentes à França, país que tanto admirava, fez estágios em restaurantes consagrados como Moulin de Mougins e Troisgros. Em 1987, reuniu o conhecimento adquirido em cozinhas e mesas de grandes restaurantes e publicou seu primeiro livro, Os Prazeres de Mesa. Vários outros viriam, como Os Prazeres da Mesa 2, A Cozinha e Seus Vinhos e A Essência do Sabor. Seu livro mais famoso, no entanto, seria Tintos e Brancos - publicado pela primeira vez em 1992 e até hoje a principal referência bibliográfica nacional sobre vinhos.