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Edição 21 - Jan/Fev 2012

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Histórias que o vinho conta


O vinho como testemunha


Fundada em 1395, a Cave Historique des Hospices de Strasbourg, na região da Alsácia, guarda entre seus barris centenários um dos vinhos mais antigos do mundo.


Por Suzana Camargo

Fotos: Suzana camargo e Divulgação
Atrás das discretas portas da Cave de Strasbourg estão guardados alguns dos melhores vinhos da região da Alsácia-Lorena


Como muitas outras cidades europeias, Strasbourg, no sul da França, é um museu vivo de seu passado. Localizada na fronteira com a Alemanha, mostra com sua arquitetura, cultura e culinária uma trajetória de disputas e conquistas de diversos povos. Fundada pelos romanos no ano 12 a.C., Strasbourg - a cidade das muitas estradas - foi disputada durante séculos por alemães e franceses até se tornar finalmente território oficial da França, no começo do século 20. Aqui se respira a alma francesa. A música Chant Militaire pour l'Armée du Rhin, que mais tarde se transformaria na Marseillaise (Hino Nacional da França), foi cantada pela primeira vez nos salões da Prefeitura de Strasbourg. O centro histórico da cidade é considerado Patrimônio Histórico da Humanidade pela Unesco.


Um tesouro revelado
Para os amantes do bom vinho, é nos porões medievais do hospital da cidade que se encontra uma das maiores preciosidades dessa metrópole: la Cave Historique des Hospices de Strasbourg. Esse não é um ponto turístico conhecido. Afinal, é fácil passar despercebido pelos portões de madeira da cava. Place de l'Hôpital, 1 é o endereço. Na verdade, esse é o endereço da faculdade de medicina e do hospital de Strasbourg. E é lá que está nosso destino.

O encanto do local já começa pela sua história pitoresca. Para os europeus, vinho e saúde sempre estiveram intimamente ligados. Por isso mesmo, em 1395, o hospital religioso de caridade de Strasbourg criou sua cava, onde era produzido vinho artesanal. Mas, para sobreviver, a instituição também dependia de doações. Então as pessoas mais abonadas faziam contribuições na forma de garrafas de vinho, que tinham um valor tão alto quanto dinheiro. Além disso, para essas pessoas, a bebida era sinônimo de paixão, caráter, tolerância, savoir-faire e generosidade. Segundo a crença local, o vinho "mata a sede, diminui a dor e alivia o espírito para a chegada de dias melhores".

Em 1721, um terrível incêndio destruiu quase por completo a cava. Felizmente, as fundações do local ficaram intactas, principalmente o teto de madeira, soberbo. Graças a um trabalho de reconstrução, durante os últimos seis séculos la Cave Historique des Hospices de Strasbourg continuou fornecendo vinho para as refeições diárias do hospital e para as missas dos religiosos.

Então, no começo da década de 1990, a cava francesa passou por uma nova grande reforma. Produtores dos renomados vinhos da região da Alsácia decidiram investir no local. São vinhos como o Gewürztraminer, cepa branca, que quando atinge perfeição produz um vinho picante, amplo e generoso; ou então os Pinot Gris, brancos ricos e complexos; e ainda o Riesling, o mais famoso. Atualmente a Cave de Strasbourg guarda um Grand Cru Kaefferkopf 2007, Kuehn à Ammerschwihr, com aroma de rosas, hortelã-pimenta e um toque de jasmim.

O espírito medieval manteve-se forte como sempre, assim como os inacreditáveis 40 barris que contêm alguns dos melhores vinhos da França. O maior desses barris tem capacidade para estocar 26 mil hectolitros de vinho. Na cava, também se pode ver uma prensa de uvas do começo do século 17.

 

 

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